Carta à Pedro: Israel

Tel Aviv, 9 de fevereiro de 2017

Pedrinho,

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Ensaio Fotográfico que fizemos para um oficina

Esses dias estive caminhando com uma amiga da Colômbia pelas ruas de Old Yafo, a parte mais antiga de Tel Aviv. Ambas somos volutárias em um hostel, trocamos comida e alojamento por algumas horas de trabalho por dia. Fomos à praia, vimos um último por do sol juntas antes dela partir e depois disso vagamos sem destino. Encontramos igrejas, construções antigas, motoristas loucos (aliás, os israelenses são muito ruins de volante). Meio as músicas árabes e algumas buzinas, trocamos muitas histórias. A maioria que contei você sabe de cor, no entanto, ela me fez lembrar uma que ficou perdida.

Cresci na casa da avó com meus primos, meninos. Ser menina e a minoria sempre foi desafiador, em algum momento parei de dançar, de usar vestido, saia e aceitava todas as provocações. Precisava que eles (e eu) soubéssemos que eu era capaz. Um dia me desafiaram a subir em algum lugar alto e fazer uma acrobacia. O resultado foi um tombo.

Outra coisa que nunca contei sobre mim é que odeio médico desde sempre. Assim, uma semana após a queda, minha mãe me flagrou vestindo a blusa do uniforme. Eu chorava e quase não conseguia movimentar o braço direito. Tinha a clavícula quebrada e o médico não soube dizer como uma criança tão pequena pode suportar tanta dor por todos esses dias.

Em Israel fui roubada, fiquei sem um tostão, tive notícias ruins, entendi que muitas das desculpas eram esquivas para não encarar meus defeitos. Fui roubada de novo mas em nenhum momento pensei em voltar. Fiquei triste, chorei e encontrei pessoas maravilhosas que me fizeram um bem e finalmente pude voltar a ser eu: mesa cheia, noite agitada e malemolência.

Quantos quadradinhos cabem em um Raggaeton?

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Se o começo é sobre suportar a dor, a essa altura é sobre fazer dela impulso. Tem coisas que 16425206_1854964154717732_813608230_na gente tem que aprender como lidar. Esses dias estive em Jerusalém, não me leve a mal mas nunca gostei muito de religião, no entanto, confesso que o lugar mexeu com algo dentro de mim, 3600 anos de história e todas as narrativas bíblicas bem ali na minha frente. Ao mesmo tempo que me deparo com a chantagem emocional promovida pela fé, que institucionalizou o sofrimento, culpa e dor em troca da salvação.

Não acredito mais que a dor faça parte do caminho, luto diariamente pra tirar de mim essa culpa que carrego e, na verdade, não me interessa a salvação prometida. Estive na igreja que foi construída sobre o calvário de Jesus e realmente é impressionante na mesma medida que sufocante. Já não tenho espaço para o que não me deixa respirar.

Conheci dois caras aqui, um dei um beijo e outro só conversamos. Hoje escolhi com qual vou sair, decisão que nã foi fácil. Optei pelo que me fez rir e que pela internet continuou sendo leve. O primeiro me fez sentir pressionada, como em uma relação. Fui escapando aos poucos, ele enviou mensagens para nossos amigos comuns, disse que esperar por mim é como esperar o gelo derreter. Talvez a gente seja só mais um caso de tempo errado. Talvez ele ainda acha que lutar e sofrer faz a conquista valer a pena.

Quantas vezes investimos tanto em quem não tem o menor interesse, nunca demonstrou a menor intenção e, ao final, os culpamos? Hoje sou eu quem nã0 respondo rápido. Uma amiga um dia me disse “se liga, ele não te ama!”. Se amasse os desfechos seriam outros. Acho que esse é meu maior aprendizado que a estrada me deu: não perder tempo! Queria dizer pra ele não perder tempo comigo, que logo me vou e não posso corresponder a suas expectativas.

Ou talvez não tenha a ver com nada disso e sim, eu simplesmente não sinto.

Para quem está na estrada, os critérios para se relacionar são outros.

Amigo, aqui já são as 3 da manhã e o hostel está vazio e escuto uma música muito engraçada de Luis Armstrong.  Depois te conto que tal meu encontro.

Com amor, Nay.

pedroA gente é ariano, meu Pedro e por outra coincidência do destino, sofremos da mesma mesma doença, TOCT, Transtorno Obsessivo Compulsivo Temporário. Botamos uma música ou um amor na cabeça e os transformamos em ideia fixa. Mas um belo dia acordamos e a obsessão se foi. A gente demora a se ver mas quando acontece, viramos a noite, nos embebedamos, cantamos Marisa Monte de olhos fechados com o cuidado de destacar as melhores frases. Acho que tenho sintomas de saudade!

 

Carta à Lívia: Além-amor e minha ida pra Israel

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Berlin, mural dedicado às vítimas de um atentado terrorista

Alemanha, 05 de janeiro de 2017

 

Lívia,

rome-686305_960_720Hoje me peguei pensando nas possibilidades que temos em ser estrangeira: de uma língua, uma terra, uma cultura e um sentimento. Mais que nascimento, eu vejo a questão do pertencimento. Eu tive que ir muito longe de casa para poder me pertencer, tive que desbravar línguas, cidades, países e culturas para começar a ter uma relação honesta comigo. Teve vezes que por semanas eu fui a única pessoa que tive uma conversa descontraída comigo mesma, que tive vontade de calar meus pensamentos e briguei (ah! como briguei) para não mais remoer o passado e os erros que insisto em repetir.

A solidão volta e meia me traz as lembranças de todas as vezes que tive meu coração quebrado e o quanto nesses dias difíceis, nesses países frios (de clima e coração), o quanto quis que alguém aparecesse e trouxesse um pouquinho de afago. E de todas essas vezes tive a sensação de ser estrangeira para o amor, algo que sempre esteve além-mim. Sempre associei o amor à culpa, que faz submergir o pior que está em mim e que tanto me esforço para esconder.

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Amiga, te escrevo daqui de Bremen. Desde que saí da minha casa, passei pela sua até chegar aqui, tive que encarar muita coisa. Algo que todos deveriam entender é que se você é como eu e não tem dinheiro, quero dizer, vai trabalhando e utilizando as ferramentas de work exchange, nem sempre a experiência vai ser legal. Vai ter dias de merda como o de hoje, vai ter que aceitar todas as neuroses das pessoas que te hospedam e que a culpa é sempre sua independente se foi você ou não.

 

Mas ao final desse dia ruim, após chorar e se perguntar o porque não consigo levar uma vida normal, ter minha casa e um emprego, eu lembro da gente. Eu lembro desses encontros que só foram possíveis porque eu suportei todas as dificuldades e em uma dessas vezes era você quem estava ao final me esperando. Talvez tenha te dito algo muito errado em uma das nossas conversas, que o caminho que nos salva é o amor. Suspeito que a única coisa que me salvará é o propósito e o meu agora é vaguear pelo mundo até que eu encontre sentido na minha vida e descobrir o real motivo de estar aqui.

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Talvez seja o propósito de me pertencer cada vez mais que me faz suportar dias ruins e em nenhum momento pensar em voltar. Desconfio que o caminho verdadeiro, aquele que não há fronteiras, seja o caminho do inspirar, aquele que nos proporciona encontros com pessoas que nos inspiram a viver e ser melhor. Hoje eu respiro fundo e me apeguei em quem você é enquanto espero a noite chegar e um novo dia surgir. Talvez a minha jornada agora seja uma completa mudança em quem acredito que sou, essa narrativa que é minha maior crença.

Preciso mudar tudo e quebrar a prepotência de crer em um mundo que quero ver e não como ele é. Tomei minha decisão, comprei minha passagem e vou em menos de uma semana para Israel.

Isso tudo para dizer que não estaremos juntas no carnaval.

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Isso é para dizer que meu caminho não tem  a ver com amor e sim deixar ir todos que amei no passado, reconstruir esses conceitos ultrapassados e finalmente poder amar com alma e, se pra isso for preciso me mover completamente antes desse novo amor chegar, não tenha dúvidas que farei porque eu sei que ao final desta viagem o amor estará ali me esperando, seja no encontro comigo mesma ou com você.

Com amor, Nay.

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Porque quando falo dela é instintivo usar a 1º pessoa do plural, as fronteiras de nossos limites se emaranham e num jogo palindrómico, vejo em nós o amor e o mar. Já perdi as contas de quem cabe em que. Ela é a minha certeza que não estamos sós, que somos multidão e esse infinito que transcende dança ciranda de mãos dadas enquanto espera um samba de coco.

Que essa alegria de viver nunca nos deixe.

 

 

 

 

Carta à Lorena: Amsterdã e a vida em um barco

 

Lorena,

Amiga, sempre pensei que quando chegasse minha hora de sair de Londres eu não teria dificuldades, um lugar que me fez chorar, sorrir, me desesperar, me mostrou o que é ser impotente diante tanto na vida…

Aí eu fui estrangeira de mim.

Ou talvez não seja nada disso. Talvez estar na estrada nos últimos dois anos da minha vida me fez enxergar o familiar dentro do estranho na mesma medida que hoje sinto estranho o familiar, que não lembro mais quem fui em algum tempo atrás.

Londres me provocou mudanças profundas. Hoje quando lembro da minha primeira 15369031_10209282263227151_140037507488623414_osemana com as crianças, sem conseguir construir uma frase, penso como fui corajosa! Eu com Sofia, Ben e Lucas  pelo underground e museus, Luquinhas sem parar um minuto de chorar e eu sem poder responder as dúvidas das crianças! Hoje ao lembrar eu tenho um sorriso no canto da boca e mal posso acreditar.

No entanto nesses seis meses eu posso ver o quanto nós crescemos juntos, hoje tenho mais um idioma, você está menos ansiosa e o Luquinhas já não chora tanto. Eu amo tanto essas crianças que não tenho como agradecer o dia que você topou receber uma estranha e dividir comigo o que vc tem de mais precioso, nossos meninos. Eu olho pra você e vejo o quanto você é corajosa e isso me faz olhar pro mundo com um pouco menos de medo.Todos os dias eu sinto sua falta, das nossas conversas e gargalhadas, dos nossos planos de fazer deste mundo um lar

13221433_10207863476603654_3356734005000419059_oA viagem foi boa, 8 horas entre ônibus e barco.  Quando foi amanhecendo, avistar os raios de sol entre a neblina foi mágico mas ainda tinha muitas dúvidas sobre o barco e minha estadia ali. Não pelo lugar em si mas a falta de acordar Sofia pra escola, a tirar da cama no colo até a mesa do café, essa saudade não me deixava pensar direito. Se despedir nunca fica mais fácil mas desta vez, esses três pequenos chegaram em um lugarzinhos bem dentrinho de mim.

Estar no barco com Kim, Alissa e Molly foi conhecer uma outra versão de mim. Desta vez eu não estive na cozinha, não participei das festas, eu não fui a Nay que costumo ser. E foi tão bom. Desobriguei-me do “ter”e somente “fui”. Acho que nunca na vida fui tão verdadeira comigo como neste momento. Sem medo ou culpa de não agradar.

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Algumas vezes aconteceu das meninas saírem e esquecerem de deixar a chave para mim,na primeira vez fui cordial, não quis causar um mal estar. Na segunda era madrugada e beirava menos dois graus e eu estive ali por 2 horas, parada no deck do barco em um lugar deserto,sem telefone ou internet. Algumas horas eu chorei, outras tinha tanta raiva que não cabia em mim. Elas chegaram, eu entrei e tentei me aquecer. No dia seguinte disse que não queria conversar porque estava com raiva e não sou boa para agir quando estou assim.

Após dois dias conversamos e eu realmente desculpei. Falamos o que precisávamos e acho que cresci com essa situação. Espero que toda a evolução que tivemos juntas, assim como me ajudou nesse caso, te ajude a seguir firme e forte pelas adversidades da vida que são tantas e muitas.

Mas put the candle in the windows, eu precisei ir mas logo que resolver algumas coisinhas aqui dentrinho, eu to voltando para ajudar a cuidar dos nossos meninos e ser essa família linda que a gente construiu sem padrões, só amor.

Com amor

Nay

 

13876396_10208199225071874_6676744452513928335_nAnsiosa, amorosa, mãe e tem um coração que não cabe. De tanto pensar nos outros, de tanto ajudar os outros, algumas vezes esquece de si mesma. E quando ela pode pensar duas vezes e não cometer o mesmo erro, ela faz tudo de novo. Porque isso é ser ela. Minha irmã e companheira que me ensinou como ser melhor nesse mundo e nessas horas eu agradeço por ter pego minha mochila e partido. Partido para ser inteira achando essas partes de nós escondidas no mundo.

Carta à Nay: Das coisas que um amigo deve dizer pra quem está longe

Ler ao som de Talk To Me

Nay,

 

team-1381084_1920Faz um tempo que não nos falamos e quando isso acontece eu sei que devo me preocupar, sei bem seu tipinho de só dar as caras quando está tudo resolvido. Eita medo de ser perguntada “como estão as coisas?” que você tem. Precisa não, já tenho muito orgulho de você, decolou pra tão longe e tantas vezes. Bem só quero dizer que eu to aqui, viu?

Estava aqui lembrando uma das última vezes que a gente conversou, você ainda em Londres. Como foi difícil, né? Me deu um aperto no coração lembrando agora o que te respondi. “Pega a mochila e vai pra outro país”?! Desculpa viu, a gente que tá aqui nem tem ideia que tudo por aí tem que ser bem calculado por causa de vistos e essas coisas. Fiquei pensando quem sou eu para dizer isso para você, talvez as palavras foram medidas na métrica da sua coragem porque eu sei que você pode. Se fosse hoje eu diria pra você segurar as lágrimas, respirar fundo e encarar, ariana nenhuma corre assim de desafio não.

Agora, hora da fofoca! Afinal, você precisa estar informada quando voltar. O seu ex anda yada-yada-1430679_1920feliz com as coisas que tem feito, tem produzido e acho que isso te deixa feliz, certo? Nosso grupo que não vai lá muito bem, houve um desentendimento e agora há vários grupos que não se falam entre si. Não sei se voltarão a falar algum dia.

No forró, lembra do casal maravilha? Separaram! Agora ele tá todos os dias no forró e ela em casa com o neném. Aqui é a hora que você entraria com o discurso feminista (que já conheço de cor) mas que tenho sentido uma falta de escutá-lo enquanto sigo os gestos de sua mão com o olhar.

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Lembra do sorriso mais bonito? Então, ponto pra mim! Ou melhor, meio ponto. Isso mesmo, melhor ficar só na amizade mesmo. Quanto desejei que você estivesse aqui e tivesse chegado em primeiro nessa…

No mais as coisas tão meio merda mesmo, ando tão desanimada com o momento do país, assim como você diz “as aparências tem mais que aparecer”, então elas estão se mostrando sob o sol do meio-dia. Tanta intolerância que dá até medo de não ter percebido as coisas antes. Sabe aquela banda Velho Scotch? Então, aqui na praia perto de casa, cercaram o vocalista e o namorado dele, quatro caras armados e além de espancarem os meninos, ainda os ameaçaram com uma arma. Talvez você tenha escolhido um ótimo momento para estar fora.

feet-914737_1920Bem, por hoje é isso mesmo. Fiquei lembrando daquela série que você diz ser sua preferida (mesmo dizendo isso de tantas) e que eu nunca assisti. Acho que é Seinfeld, você sempre diz que ela fala sobre o nada, o nada que acontece dentro da rotina batida, no mesmo bar que sempre vamos ou num simples juntar dos amigos. Sempre penso no quanto você gosta das coisas banais, não sei o motivo mas acho que é porque você sempre tem tanta aventura na vida que os pequenos banais milagres é o seu jeito de valorizar cada coisinha. Escrevi tudo/nada disso para você se sentir em casa, ou ao menos sentir que ainda tem casa e família.

Aliás, aqui todo mundo, volta e meia, pergunta por você e sempre naquele tom de “como ela é corajosa”. Alguns me perguntam como você faz para se virar, eu digo uma coisa ou outra mas confesso que tenho um pequeno prazer em deixá-los na curiosidade. Também falo do seu blog e digo que você conta algumas coisas lá… Nunca perco oportunidade! Mas na verdade só a gente sabe os perrengues, né não?!

Morrendo de saudade da gente, quero saber tudo do carinha que você se apaixonou. Finalmente, não? Senti falta das paixões on the road. Some não, manda notícias sempre e saiba que amo você. A gente é família.

Quando comecei a carta achei que nem tinha assunto e agora não consigo finalizar. Com a gente é assim, as coisas acontecem tão naturalmente. Espero que você sempre encontre “a gente”em outras pessoas, que faça bons amigos e que eles cuidem de você enquanto estou longe.

Preciso ir.

Bjus

 

 

Curvas na Estrada e Silva

“Eu estava indo para a casa dos meus pais, fazia 90 Km/h  quando um policial me parou, saiu do seu carro e veio até mim, me olhou com cara de ironia e me disse:

_Mocinha, eu estive esperando você o dia todo!

Então eu olhei bem nos olhos dele e respondi:

_Peço mil perdões, senhor. Eu vim o mais rápido que pude”

ted-mosbyUma piada que Stella conta para Ted Mosby, ambos personagens da série How I met your mother. Stella abandonou Ted no altar e fugiu com seu ex-namorado. Dentre as voltas do mundo, ela precisa da ajuda de Ted e ele acaba a perdoando, deseja que ela seja feliz. A confessa que está cansado de esperar para ter o que ela tem na relação. Stella responde com essa historinha e diz para ele se acalmar, o amor está vindo tão rápido quanto pode.

Faz algum sentido para você se eu disser que ele está vindo para mim, que ás vezes sinto meu corpo e minha alma se preparando para recebê-lo? Esses tempos comecei ficar mais atenta aos sinais, ou melhor, os sinais tem se feito aparecer cada vez mais forte.

Em um momento difícil da minha vida, acreditei que não sabia amar. Tive uma relação que acabou e as feridas do fim ainda sinto abertas aqui dentrinho. Não pelo cara, por mim. O fim me mostrou quanta coisa tenho que evoluir e isso me assustou, me fez ser receosa.

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Mas esses dias o Silva lançou um álbum em que ele canta Marisa Monte, justamente aos 2min 8s da música Na Estrada, quando ele canta “ela vai voltar, vai chegar”, é na curva do voltar que eu me encontro. Estou exatamente como em uma curva em que não se pode enxergar o caminho percorrido e tão pouco a estrada que me espera. E nesse exato momento que eu tenho que ter fé, que as curvas não sejam muitas e que logo de onde eu estiver consiga enxergar os horizontes.

Que eu possa fazer com este novo amor  o que Silva fez com as músicas da Marisa, quando parecia ser impossível ir além, quando pensávamos que já não havia possibilidade, ele cria. Nessas frescas versões já não há vestígios de um passado. Nelas só há presente-futuro e isso me enche de esperança.

Enquanto isso sigo em Amsterdã em um dia frio e de vento forte, as bicicletas estão caídas pelas ruas e há tempestade de folhas. A minha hora vai chegar.

Vai chegar.

Eu sei.

 

Carta pra você: Das cartas de amor que nunca enviarei

Antes de começar a ler, dê play nesse som e entenda o que sentia ao escrever cada palavra.

Você é o meu amor que nunca aconteceu.

Em uma das nossas primeiras noites, entre um pub e outro das ruas de Londres, ainda no primeiro achamos um balão. Eu o agarrei e o segurei por toda noite, com ele, além de graça fizemos amizade e rimos e eu não acreditando que  algo tão simples poderia divertir tanto a gente. O deixei em sua responsabilidade e você o perdeu, me contou com aquela carinha de menino que aprontou e eu te ensinei a palavra desapego: muito mais importante que ter foi viver.

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Quando nos despedimos você disse exatamente isso para mim, que iria pensar em mim como um balão, que estaria voando por aí fazendo pessoas felizes. Eu só esqueci de te dizer que para desapegar, é preciso se apegar primeiro. Talvez quando te ensinei essa nova palavra, estava simplesmente dizendo para mim em voz alta.

Você não foi meu melhor sexo, você não me fez sentir nada que já não tenha sentido. Aos trinta anos não posso mais me permitir cair nesse “conto da exclusividade”, por entender que ele é um formatador de comportamentos e claro, para mulheres. Eu te quis porque somos quem somos e nos encontramos em momentos lindos de nossa vida, foi daqueles encontros que desestabiliza lá dentrinho da gente onde a gente não tem controle, sem saber porque, é só querer mesmo.

A gente foi carne e desejo desde a primeira vez, a gente se reconheceu naquele ponto de loucura que cada um traz e fez dele nosso pão, sem promessas e sem futuro. A gente sempre soube disso e acho que é só por isso que das mil vezes que vejo a sua foto por dia, que abro o seu face e tenho aquelas nossas conversas imaginárias, acho que é só por isso que sinto sua falta e não dói tanto.

Outro dia me peguei pensando como você se permitiu perder um amor como o meu, alguém que devora cada olhar, deseja cada respirar e te quer tanto.Mas aí lembro de mim, que já quis alguém assim e tive, uma, duas vezes e nenhuma delas acabou bem. Melhor viver com a dúvida ou esgotar todas as possibilidades?

img_0388As vezes penso que não sei amar e sim é melhor deixar você ir para ao menos quando escutar “La vie en Rose”ainda sentir algo. Se for para algo ficar, que ainda seja aquela bela melodia de Luis Armstrong que tocava enquanto via a chuva molhar a janela do seu sótão.

Desapegar significa por fim nas conversas diárias, te ver online e não poder contar que nesse novo país as moças da biblioteca são malvadas, que eu levei meu primeiro tombo de bicicleta em Amsterdã. Sinto falta das suas respostas que me inflam pro mundo.

Foi tão bom estar com você, falamos o que queríamos, fizemos o que tínhamos vontade, visualizávamos e respondíamos sem o medo da velocidade da resposta se mostrar disposto demais. Com a gente não teve disso e foi tão bom. Mas agora é hora de seguir, falar menos, se distanciar e facilitar o caminho, ao menos eu preciso me livrar de você para poder seguir.

Fiquei outra noite pensando se em uma das vezes que te chamei para vir comigo, se 14958078_10209340605210946_1309714287_onaquele tom de brincadeira você respondesse seriamente que sim. Bem, prefiro os problemas de não te ter, porque caso contrário, em algum momento viria a tona os truques que faço e ninguém percebe, sei escondê-los muito bem com um largo sorriso e meu jeito espontâneo. Mas na verdade morro de medo de não saber lidar com o grande homem que você é e tudo que isso vem incluso. Ando só a tanto tempo, longe de minha família, meus amigos e te ver assim me espantou, enquanto você tocava piano, as fotos em família bem ali me encarando, a vida completa que você teve e nesse momento, ao olhar para mim, vejo o nada.

Mas eu tenho outras forças dentro de mim e talvez que eu procure seja justamente quem ame o que posso oferecer. Talvez se eu tenha que dizer isso para alguém, esse não seja o nosso momento. Isso tudo não quer dizer que você não reconheça, aprendi que ás vezes só é para ser o que foi. Que assim como eu, todos estamos afogados em nosso anseios e dramas pessoais. Eu e você somos muito bons mas o mundo é grande e a gente tem a mesma necessidade.

chega-de-saudadeTe desejo tudo de melhor e espero que amanhã, quando você caminhar da estação para o trabalho, peço que você  não esteja tão concentrado nas músicas do seu Ipod, que tire o seu dia para olhar para a rua e achar um recado que deixei colado para você. Que você leia e que a cidade te encoraje  a seguir seus sentimentos. Deixei a frase que a gente sempre usava quando decidia se ver, sua primeira frase em português. Tem outros recadinho escondidos também.

Despeço-me aqui, a vida nesse momento se faz tão larga e talvez nesse ponto, o mundo já tenha gasto todos nossos acasos de encontros. E como você sempre me diz, você sabe que eu ficarei bem.

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Chove em Amsterdã mas o sol insiste em sair.

Nesse momento, preciso encontrar minhas Things behind the sun.

PS1.: A gente não tem nenhuma foto juntos!

 

 

 

 

 

Carta à Sabrine: Woof, Amores, Worldpackers e Amsterdã

“Eu gosto tanto de você e sinto sua falta”.

Essas foram palavras suas para mim em nossos últimos áudios, faz tempo e não consegui te responder como deveria, tenho passado por momentos de muita reflexão, de muitas dúvidas. Não por nenhuma dificuldade aqui, ao contrário. A vida aqui está estável e o equilíbrio me faz olhar para minha vida, a gente pode fugir de tudo, mudar de país, de língua, de amigos mas das nossas falhas, das nossas culpas não. Tem vezes que penso que sou um livro ruim do Paulo Coelho, o mesmo enredo com personagens diferentes em um novo cenário. Todo mundo ama mas nós sabemos as fraudes e estratégias que o tornaram sucesso.

Vamos começar pela fazenda. O programa Woof é responsável por conectar pessoas  dispostas a experimentar uma vida mais sustentável e fazendas que tomaram para si a responsabilidade de um mundo melhor, produção orgânica e amor ao outro. Conheço algumas pessoas que tiveram experiências maravilhosas mas infelizmente não foi o meu caso.

Queria estar em uma fazenda que produza e se sustente de maneira responsável, que produza uma renda para se manter e a seus funcionários, o discurso ecológico é lindo mas vivemos em um mundo que necessitamos ter uma fonte de renda e disso ninguém está livre. No entanto a pressa de sair por um tempo de Londres adicionada a uma total falta de experiência me fez parar em uma fazenda de um casal de aposentados (ela médica, ele businessman) que não contava mais do que com 2 vacas, 2 cabras, algumas galinhas e patos, um casal de porcos entre umas pequenas plantações nada muito além que para a sobrevivência.

Dividia uma casinha de madeira com dois meninos, um francês de 21 anos e um lituano de 17 anos. Tinha meu quarto e somente compartilhávamos as áreas comuns. Ao todo fiquei lá duas semanas (o que seria para ser 1 mês). Não foi uma estadia fácil, houve desencontros de informações quanto horas trabalhadas versus day off e isso me incomodou porque tinha planos de estudar mais enquanto estivesse lá. No entanto o maior problema foi como me fizeram sentir, os meninos trabalhavam juntos o dia inteiro e sempre se divertindo.

A mim estava reservado trabalhar sozinha e os trabalhos mais inúteis, me parecia que buscavam coisas pra eu fazer do tipo “Ah, faz isso que tá bom”. Na primeira semana tudo bem mas os meninos começaram a notar e reproduzir essa conduta, em algum momento queriam que eu cozinhasse e limpasse, afinal eles faziam o trabalho de verdade. Quando tomei coragem e fui conversar com a dona da fazenda, ela me respondeu que eu podia sim limpar já que os meninos trabalhavam mais. A primeira opção dela depois dessa resposta foi me perguntar se eu estava feliz e que se não, eu podia ir a qualquer hora.

Onde não há amor já não me demoro.

O carinha que conheci, ele foi fundamental nesse momento da minha vida, trouxe cor à cinzenta Londres, foi à Norwich me ver e continuamos por um tempo juntos. Ao todo foram dois meses e meio e posso dizer que cresci muito emocionalmente com ele. Mas não havia paixão, havia um bem querer muito grande, companheirismo e respeito. Estar na estrada é o jogo mudar a todo momento e assim, resolvemos que já era hora do final, eu precisava conhecer uma Londres que até então não tinha tido oportunidade, seja pelo idioma que me faltava ou pela coragem. Confesso que também sentia falta da outra parte do se relacionar, aquela que é sintoma, dois inconscientes se relacionando, um sexo sintonizado, um sentimento: coração acelerado.

Bem, em Londres também tem carnaval e eu fui disposta a me divertir, ficar bêbada e me perder pelas ruas de Nothing Hill. Coloquei um vestido, colori o rosto, vodka e cerveja na mochila e fui. Fazia tanto tempo que não me sentia assim, dona do mundo e as pessoas sentiam, onde eu chegava sempre era rodeada de sorrisos, abraços e beijos. No meio dessa loucura me passa um homem loiro e alto caminhando avulso meio a multidão. Eu o olhei e disse “kisse me, please?”, ele disse que sim. No exato momento que ouvi sua voz senti um arrepio no corpo e o que era para ser um beijo no rosto virou um, dois, três… Resultou em dois dias tanto intensos. Te juro, que ele é do tipo que eu deveria dizer “não mais viagem, seja meu”. Fazia anos que não sentia isso, desejar algo com o corpo e com a alma.

img_0430Ele voltou para Países de Gales e eu segui me despedindo de Londres e pesquisando sobre Amsterdã. Mas isso não quer dizer que não olhei o facebook dele inúmeras vezes, que não escutei mil vezes a versão dele, meio funk/soul, de Son of preacher man, somente no piano e voz. Espero um dia sentir isso novamente e poder ficar, viver isso por toda uma estação. Espero um dia não ter que ir, que ele seja bom comigo e que eu possa ser eu.

Estivemos juntos outras inúmeras vezes, cada despedida era seguida de mensagens uma vez mais…”. Eu fui e ele veio outras vezes, cada partida dele, ou minha, era esconjurar minha condição. Ainda bem que tudo passa…

Amiga linda, sempre que penso em você é impossível não recordar nossas trocas, nossas tentativas incansáveis de evoluir como pessoa. Essas nossas conversas me lembraram de um personagem do Ziraldo, “Jeremias, o bom”. A essência da trama é baseada na questão: como ser bom em um mundo que não é? Como ser bom sem então as pessoas não tirarem vantagem?

Como se permitir evoluir e lidar a todo momento com pessoas que ainda não possuem tão consciente essa autocrítica? Eu não tenho essa resposta ainda, vou seguindo como posso, com cada um tento trocar conhecimento, aprender e deixar um pouco. Em um momento, serei tantas e várias que poderei ser uma para cada um. Poderei olhar para cada ser e entender o que ele precisa naquele momento e assim buscar a parte de mim que a ele corresponde.

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Hoje estou em Amsterdã, cheguei faz uma semana. Sinto falta de casa, não da casa física mas daquela sensação de poder ficar desatenta por uns segundos ou mesmo de me expressar por inteira. Talvez minha casa sejam meus amigos. Estou testando o programa Woldpackers e vim parar em um barco. Moro com mais duas meninas, uma daqui mesmo da Holanda e a outra de Nova Zelândia. Mas isso já é papo para uma outra cartinha…

Amo você e a gente se vê loguinho, e que seja carnaval de batons de todas as cores. Que vejamos arco-íris e achemos nosso pote de ouro ao final de cada cor.

Estou com saudades e penso tanto em você.

14021621_1198740473479640_800521737800410137_nEla é muitas, cabelo raspadinho, dread e black. Não tem medo de se (re)inventar. Faz em voz alta aquelas perguntas que a gente faz pra gente mesmo bem lá dentrinnho. Mora lá na Vila Isabel e independente pra onde vai, sai com uma hora de antecedência, seja pra Lapa, Copacabana ou Niterói. Manda áudios de 20 minutos e desaparece por um tempão. Tem um dos sorrisos mais lindos que já vi e sempre desperta o melhor em mim. Com ela só existe Nós!

 

 

Imagem de capa: Marcella Haddad

 

 

 

Carta ao Adry: Bye, bye London

Londres, 24 de junho de 2016

Adry,

Acabo de chegar em casa, aqui já são as 9 da manhã e melondo preparo para ir de Londres. Acho que, devido ao vício de aproveitar nos últimos minutos o que não fiz ao longo de quase 3 meses, essa semana eu me permiti. O verão chegou, as pessoas estão mais felizes pelas ruas e finalmente os pubs abriram seus terraços. Conheci uma pessoa muito especial, fomos a tantos bares, comemos comidas indiana, tailandesa e vietnamita (apimentada!). Vimos tantos entardecesse nos terraços com drinks e cervejas e risadas. A vida deveria ser assim sempre, vivida como se não houvesse vida amanhã e assim aproveitar cada segundo, por o quanto es naquilo que faz.

Para despedir-me, reuni todos que me acompanharam por aqui em um bar. Teve a banda que mais amo, sim, uma banda de forró que se chama Trio Xamego. Fiquei meio ansiosa, porque sabe como sou horrível em misturar relações com forró. Talvez ali nesse meio, seja o único lugar que seja exigente de verdade, não gosto de ir acompanhada porque gosto de dançar com todos e conversar. Ser livre. Para minha surpresa foi maravilhoso, tomamos uns drinks ao final e voltamos à casa dele. Deixá-lo foi difícil, Londres me maltratou, me fez triste, alegre e mais forte e justamente agora que tenho amigos,tenho que ir.

Estar na estrada é aprender o real sentido do desapego, deixar ir o que não queremos mais não é desapego. Deixar-se ir quando ainda está bom, quando ainda quer ficar ou ter, isso sim que é o real sentido da palavra.

Cheguei em casa não faz muito tempo, a minha pequena Sofia, a garotinha do vídeo que tomo conta, estava sozinha, acordada e já com uniforme. Cheguei cedo e ela já estava pronta. Como admiro sua independência. Na casa não tinha leite para ela comer seu cereal, reuni o que tinha e cozinhamos panquecas e comemos juntas com mel. Enquanto penteava seus cabelo, olhei para aquele uniforme tão feio, largo e a disse que não gostava dele. Ela com toda a serenidade me olhou e num tom de consolo me disse “Come on, is just school”. dela o que fica são as fardes no balanço, eu receosa e ela me pedindo que a empurrasse mais forte, mais alto. Olhar o vento em seus cabelos e seus olhinhos fechados sentindo ao máximo aquele momento. Quem dera eu ter sua coragem!

londons-liverpool-street-station-suffers-major-rush-hour-disruption-136403474175903901-160120173007Saio agora as 14:00h de Liverpool Street e vou a Norfolk. A fazenda budista que estava tentando, não deu certo. Assim, consegui um outro lugar, é uma fazenda de permacultura. Não sei muito além que trabalharei 5 horas de segunda a sexta, dividirei o quarto com um francês e viverei com uma família. Precisava sair de Londres, a cidade me fez mal, conheci pessoas más, seu transporte é caro e meu principal objetivo, aprender inglês, não estava conseguindo conquistar. Aqui é incrível e há gente de todos os lugares do mundo e, justo por isso, tenho falado muito português e espanhol. Ir para essa fazenda foi a maneira que encontrei para ter um mês de descanso sem ter que me preocupar com comida, passagem e trabalho. Estar somente com ingleses vai dar um up em meu inglês além de ter um tempo maior para refletir e produzir.

Estava em um bar esses dias, o primeiro dia de verão, estavadinner-666151_960_720 um céu azul e tinha balões pelo céu que soltavam fumaça  azul. Conversava com um amigo espanhol quando de repente uma menina nos interrompeu e disse que amava espanhol mas ainda não falava. Contei que sou mochileira e que vou a Norfolk. Ela, londoner, me contou que seu avô mora lá e que tem uma praia linda, não como as do Brasil mas ainda sim lindas.

13523711_10153556527306691_1475256647_oMeu celular e computador quebraram, não sei se lá tem internet e nem sei como vou fazer para me comunicar. Mas fica tranquilo que, nem que eu pegue um cavalo ou uma bicicleta e pedale por horas, vou tentar uma vez na semana dar notícias. Você é minha família, meu irmão desde o primeiro dia que compartilhamos um ideal de casa. Sinto tantas saudades da gente, das risadas, do seu humor. Da maneira como discordamos de tantas coisas nessa vida, mas amamos tantas outras!

Em 9 meses to chegando novamente, mas agora preciso pensar que preciso estar aberta para viver tudo que preciso, voltar uma pessoa melhor, mais digna destes meus amigos que tanto amo.

Finalizo essa carta como quem não quer, sinta cada palavra como um abraço apertado, daqueles que nos abraçam assim porque querem dizer que precisam de coragem. Hoje eu preciso, sou pura emoção. Te amo!

Com amor,

Nay

Fotos by Marcella Haddad

adryA gente morou juntos por quatro anos, entre bebedeiras, ressacas e muitas aventuras, tínhamos um lar. Somos família. Brigamos, nos separamos e não nos falamos por dois anos. Um dia, indo de bicicleta ao trabalho, o vi caminhando. Conhecia aquele andar de tristeza. Parei a bici e o abracei, ele me abraçou e me contou o que estava acontecendo. Isso bastou. O amo tanto e tenho tanto orgulho!

30 contra uma: Do impeachment ao estupro coletivo

Ele é de esquerda, levanta a bandeira contra o impeachment. Ele se quer socialista e ataca as elites e seus privilégios. Fala bem, argumenta com firmeza em cada palavra naquele tom que, mesmo falando merda, nos deixa sem resposta. No entanto, outro dia vi uma postagem dele que dizia que as reclamações que nós mulheres estávamos fazendo no facebook sobre a composição de ministros neste governo usurpador era besteira, não importa que, apesar de estar em um país plural, a bancada seja composta somente por homens brancos e cis porque afinal, somos primeiro e antes de tudo, seres humanos.

Costuma fazer piadas com o feminismo aproximando-o ao nazismo, comparando nossa postura política que nada mais é que uma tentativa de sobreviver às ameças diárias que sofremos. No entanto é esse mesmo sujeito que, algum tempo atrás postou um print de uma conversa com uma mina onde ela reclamava que ele somente a procurava para transar. Nos chama de feminazi mas reconhece que suas sobrinhas e filhas de amigos vão fazer lutas marciais para se defender. E quanto ao restante de meninas que são invadidas todos os dias? Você não pensa nelas? Salve-se quem puder, certo?

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Tinha me prometido não participar mais de discussões em facebook, mas ontem quis responder esse aí que, assim como o primeiro, mais preocupado em atacar as feministas do que os próprios estupradores. Aqui ele comentava sobre o caso da menina que foi estuprada por 30 (trinta) garotos. Descabida a comparação.

vit vergonha de ser homem

O respondi dizendo que, se aquela era a opinião dele, provavelmente ele era um possível candidato a um dos 30 rapazes. Ele me prometeu um processo.  Não seria legal se esse cara se indignasse tanto com a violência contra as mulheres quanto se indigna com a generalização sobre homens? Quarta-feira eu e minhas amigas choramos, por que vocês homens não sentiram essa mesma dor e indignação?

Combater a misoginia, que é o que causa estupros, não querem. No alto de suas virilidades, não conseguem escutar o que estamos gritando, cada vez mais alto, as atrocidades que sofremos todos os dias. Encaremos os fatos como são: a cada dois minutos uma mulher é estuprada no Brasil, com a hashtag #meuPrimeiroAssedio expomos ao mundo que TODAS nós já fomos assediadas, silenciadas, agredidas, humilhadas, expostas e estupradas. Como uma amiga escreveu, “não conheço uma mulher sequer que nunca passou por assédio, que nunca foi alvo de piadas misóginas e de machismo”.

Estuprador não é somente aquele que comete o ato em si, estuprador é cada homem que vit coment deixado hj aquiri daquela piada machista e que vaza nude de mina, que passa cantada na rua, que puxa o braço na balada, que chama a gente de louca e classifica-nos em boas (pra só comer ou se relacionar) que insiste que a mina vai ter uma “lição de moral” do ocorrido. Você, querido colega, que reproduz cada pequeno conteúdo machista também contribui para que casos como esse continuem acontecendo. Você também é sim um estuprador.

O que isso tem a ver com o nossa momento histórico que vamos vivendo no Brasil? Não é atoa que o golpe teve sucesso contra uma presidenta, uma mulher que pela primeira vez assume as rédeas do Brasil. Não estou a defendendo em suas decisões de governo, não entraremos nesse mérito aqui, quero chamar a atenção em como foi desqualificada em sua condição de “ser mulher”, em cada ofensa revelaram ao mundo o quanto ainda temos que lutar contra o machismo, porque nesse golpe o machismo foi fundamental para o sucesso.

Lembro bem na época da copa do mundo os coros de “sapatão”, “vadia” e “vai tomar no c*”, aparelhos regulatórios antigos do machismo para nos manter submissas. Penso que o golpe só se efetivou de fato porque era uma presidenta, revelando ao mundo que o machismo sobrevive ao esquerdismo, socialismo e qualquer outro movimento. Que as mídias abertas são também culpadas pela formação de estupradores, que repetem e repetem e repetem essas ofensas e as impregnam no interior de cada um de nós a ponto de nos fazer acreditar que, mesmo sem crime, ela não era capaz de governar. As escolhas afetivas de Dilma, seu corpo e sua feminilidade sempre foram notícias e argumentos para ela deixar o poder enquanto se passa batido Temer, um pedófilo.

Paralelo temos o “mito”, uma bancada religiosa liderada por um homem branco, cis vit bolso pagar menos(machista é pleonasmo?) e intolerante a toda e qualquer minoria. Blasfema suas teorias sem o menor pudor ou preocupação. Depois de sete mandatos como deputado federal sem fazer absolutamente nada, esse sujeito decide lançar um projeto que estipula castração química para estupradores. Olha a solução que o cara me arruma, chama de doutrinação gay aulas de diversidade sexual e gênero nas escolas e propõe essa solução que nada resolverá porque estupradores continuarão estuprando usando objetos (o que já é uma prática muito comum atualmente, mesmo entre homens não castrados).

Dos 4 políticos homens que sigo no meu face, nenhum se manisfestou sobre o caso, mesmo o ocorrido acontecendo no Rio de Janeiro, onde dois exercem seus mandatos. Daí caro colega, o problema de ter um país liderado por um pedófilo que se orgulha de ter sido o único homem na vida de sua mulher, com mais de 40 anos de diferença de idade (ela ainda uma menina). O problema de um ministério composto somente por um perfil (antigo) de ministros é que temos o grave pecado da falta de representabilidade e legitimidade de fala porque ali, do jeito que se arquitetou, somente os interesses do próprio bolso estão sendo representados.

Os dois rapazes que cito ambos são contra o golpe, um critica por inteiro, o outro com ressalvas. O segundo é a favor do fim do Minc. A única coisa que os dois concordam mesmo é sobre os ataques das feminazis aos homens de bens que são muito diferentes dos monstros que estupraram essa menina. Não conseguem entender que quem estupra não é doente e sim resultado de uma cultura enraizada na nossa sociedade.

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De 30 homens nenhum teve a complacência de se indignar, de dizer não, de tentar impedir. Que doença seria essa que atinge homens ao mesmo tempo e local? Que doença é essa que atinge quase 100% de homens? Isso é o que chamo de cultura do estupro, tão silenciosa quanto eficaz. São pessoas saudáveis e respeitáveis, pais de família, homens casados, trabalhadores honestos e amados por seus familiares e amigos. São homens comuns, exercendo o cotidiano poder sobre o corpo da mulher a ponto de não ser uma preocupação divulgar o crime através de seus perfis pessoais (porque afinal não consideravam um crime).

vit quem ele atacaEsta história da opressão está em todo e qualquer homem, é preciso entender a carga histórica que está em nós depositada. Porque se não a reconhecemos, não podemos lutar contra as opressões, presentes no jogo simbólico social, que estupro é um meio de homens se unirem, que é uma prova da masculinidade, que parte do princípio que a vítima não é uma pessoa, mas uma coisa.

Talvez um governo específico não tenha a capacidade de acabar com essa violência, mas uma maior representabilidade da sociedade em cargos públicos seja o início e, ao invés de Bolsonaros que somente incitam ao ódio coletivo e propõe leis que nos retrocedem a séculos passados, possamos ter de fato medidas sérias de combate a violência contra a mulher e todo e qualquer ser. Políticas que proporcionem novos diálogos acerca da masculinidade e do feminismo.

 
Que a cultura do estupro acabe e que acabem os estupros. Que esses bandidos sejam presos e punidos e que a jovem seja amparada e protegida (porque talvez ela nunca se recupere). E que as opressões femininas, das menores às maiores, sejam vencidas o quanto antes para que a igualdade seja, enfim, alcançada.

Com amor, Nay.

Resposta à Samira: Londres e empresas que contratam estrangeiros ilegais

 

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Londres, 14 de Maio de 2016

Sami,
Suas palavras tiveram caráter de urgência pelas bandas de cá, foram afagos e carinhos em forma de palavras e nesse momento eu preciso mais que sempre dessa energia. Posso te imaginar olhando o mar enquanto me escreve, talvez eu e você não estejamos tão distante quanto parece, justo essa semana tenho pensado muito em Lô Borges, Um Girassol da Cor do Seu Vestido tem sido minha trilha sonora. Talvez nossos encontros sejam em outro tempo, paralelo ao do relógio-espaço.
Nosso encontro em Buenos Aires foi lindo e ali deixamos de lado um ego que tem o peso dos homens ditando que as mulheres são rivais e ambas, destruídas, se apoiaram na sororidade para se reconstruir. Que lindo te ver como uma irmã e com certeza escolher ir foi essencial para me descobrir mulher, independente e forte. Minha vida está em minhas mãos, minha felicidade é minha responsabilidade e essa é meu esforço diário. Te vi mais feliz no nosso último almoço mas entendo que o nosso tempo é diferente e você precisa de um pouco mais para se ver ainda mais livre, a mulher maravilhosa que é e que o mundo é seu. Calma, o caminho é longo mas eu acredito em você e de onde estiver te espero para te dar a mão se necessário.
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By Marcella Haddad

A vida em Londres tem sido maravilhosa, obrigada por lembrar a coragem que mora em mim, ela anda meio esquecida por aqui. Não dominar o idioma tem me causado mal estar, dificulta arrumar trabalho e assim vou trabalhando com o que aparece e sujeita a tudo. Estar na América do Sul, em qualquer país de lá, ser gringa é ser amada e respeitada. Aqui fui levar as crianças em um festinha de aniversário de um amigo de classe e a mãe do aniversariante fez questão de não me dar bolo para eu entender meu lugar. a gente tira o que tem, diz que tá sem fome e dá sempre o melhor pedaço pra visita.

 

Ser mulher ainda piora a situação porque tenho a ameaça ao meu corpo onde quer que vá, um dia desses fui fazer um cleaner em uma casa, o esposo estava só e assim que comecei a limpar, ele foi para o quarto e começou a assistir filme pornbem alto e eu sem o dinheiro da passagem de volta. Nem consigo dizer as coisas que pensei nesse momento.
Outro dia fui procurar emprego em uma agência que contrata pessoas sem documentação para trabalhar, foi difícil porque mal consigo fazer uma entrevista mas me mandaram para um treinamento em um hotel. Eu sem conta de banco e sem documentação não sabia nem como iria receber mas tive medo de perguntar. No primeiro dia de treinamento trabalhei por 8 horas limpando 14 quartos sem ninguém para me orientar e com hóspede que faz questão de não responder as batidas na porta somente para os flagrarmos se masturbando. No segundo dia a mesma coisa e no terceiro, me mandaram para um hotel em que a a gerente me botou para fora porque meu tênis tinha pedacinhos brancos.
Na verdade, eu trabalhei dois dias de graça sob o pretexto de treinamento, o dono da agência ainda disse que eu deveria agradecer pelo hotel abrir as portas para deixar eu praticar. Posso estar errada, pode ser um gesto de puro orgulho em um momento que necessito mas decidi não voltar. Tão pouco sei o que fazer e me questiono se a decisão é correta mas me recuso a voltar em um hotel que, eu trabalhando de graça, em um “treinamento” não possa ficar. Meu computador parou, preciso juntar dinheiro e seguir meu caminho e nesse momento não sei o que fazer. Talvez o que você me elogiou dizendo que eu não me calo, descubro que também é um problema. Ou talvez calar não seria eu mais, romperia com meus ideais de estar na estrada.
Todos pagamos o preço das nossas escolhas, no entanto, temos que saber que são as escolhas que não precisam ser eternas, já te disse uma vez que você precisa aprender que o outro tem o seu tempo e que não necessariamente se ajusta ao seu, temos que aprender qual é a parte do caminho do outro no nosso, aprender a mudar de direção , se despedir e seguir. Talvez ainda não seja o seu tempo e eu tenho que respeitar isso.

Eu sigo tentando aprender que a dor não faz parte da aprendizagem, que sofrer não faz

By Marcella Haddad

parte do caminho e que muito do que me acontece dentro disso são coisas que eu escolhi. Problemas que inventei e me apeguei. Estar na estrada é aprender a lidar com o peso, com o que cabe e o que é excesso, é insuportável ter coisas demais e, por mais que esteja viajando com companheiros, cada um tem a sua bagagem para si. O que você bota dentro da sua mochila só você tem o poder de decidir.

Sobre seus sobrinhos, ter crianças ao lado traz luz. Eu aqui cuido na semana de uma menina extremamente geniosa, para mim que sempre estive rodeada de alunos, foi difícil me conectar. Ontem fomos ao parque e brincamos e ela disse pela primeira vez que me amava e me abraçou. Não nos comunicamos mais que o básico, mesmo ela sendo minha mais doce professora de inglês, mas é quando escutamos música, desenhamos e fotografamos que nos encontramos. A arte nos uni e eu sou muito feliz por isso. Essas crianças são luz nos nossos caminhos.
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Londres anda cinza em plena primavera e eu penso que nesses dias é o meu humor refletido no céu. Isso vai passar e eu tenho que acreditar e ser fiel a cada acontecimento, porque outras coisas ruins que me sucederam resultaram em outras grandiosas. Preciso ser fiel e fazer o melhor, esperar o melhor. Hoje fico por aqui, me despeço lembrando daquela música dos Doces Bárbaros, talvez ambas precisem dela agora.
Com amor, Nay.

 

11693801_862301237185138_7659824507386407570_nPretinhosidade pura, se ela é a musa do Jorge Amado, eu por aqui vou amando…